LOUVOR E SIMPLIFICAÇÃO DE CARLOS AMARAL DIAS

Updated: Dec 7, 2019

Por Vasco Santos


Com certa espécie de solidariedade lembro-me de ti, Amaral Dias, 

psicanalista gato

branco à janela de muitos 

prédios altos!


Tu foste o mais notável psicanalista desta terra tuga, o mais eufórico mestre.

Foste tu, na velocidade demente do teu voo que difundiste, como hermeneuta no expresso do ocidente, a psicanálise em Portugal, que deste a ver o latente no batente do real quotidiano.


Na Universidade, nos livros, na rádio, no jornal, na clínica, nas supervisões, nos cafés, (em Vilamoura!)  Amaral Dias criou sempre a possibilidade do assombro.


E o importante não é o que se aprende. Mas com quem se aprende.


Foste tu, Carlos, que fizeste da Psicanálise uma revolução inquieta por estas terras. Que fizeste do seu ensino o arco e a flecha para novos insupeitos analistas. Ou ainda mais.



Tinhas uma intuição fulminante, luminosa. Percebias num instante a conjunção constante do paciente. Despenteavas.

Havia júbilo.


Dançavas para além de Freud, da estrita clínica, da mediania pobre da catequese.

E eras muito narcísico, imprevisível, a estuporar o nítido nulo da porta da frente. Eterno e breve.


Publiquei-te "Ascensão e queda dos toxicoterapeutas".

É o melhor livro português de pensamento psicanalítico que me lembro escrito na banalidade contemporânea destes mundos.


Livro publicado, ainda por cima, quando o autor se apaixonou pelo meu gato Jacques Tati.


A morte de CAD é uma perda enorme, científica e cultural.

E simbólica.


Depois dele que venha triunfante a algebrose e a normopatia.


Mas no destino desta perda lembraremos: somos apenas grãos de areia / que se agitam antes do sono.


E a alma humana é um abismo. 

E tu, amigo, és um ponto cada vez mais vago no horizonte.

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