SL cut black 3.png

Sérgio Lewkowicz

Psicanalista

 

 

Quem é o Sérgio Lewkowicz?

 

Sou um analista de Porto Alegre, do sul do Brasil, e trabalho também na Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, como professor, como analista didata e como supervisor. 

 

Estou muito ligado à psicanálise do Brasil e da América Latina. Recentemente, também fiz parte do Board da International Psychoanalytical Association (IPA), como representante latino-americano. Foi uma experiência enriquecedora em termos de conhecimento das psicanálises de outras regiões e também em termos pessoais, conhecer colegas diferentes, com ideias diferentes.

 

O Sérgio considera que há mais do que uma psicanálise?

 

Eu diria que há várias psicanálises. Mesmo no Brasil, que eu veja, atualmente existem duas  correntes. Uma mais ligada aos franceses, e ao André Green, que traz pessoas vinculadas a esse grupo, como o Roussillon, e uma outra psicanálise, mais ligada ao Bion e ao Meltzer. Enfim, existem pelo menos estes dois grupos que são bem acentuados, mas tem vários outros. O Winnicott e o Ferenczi também são autores muito estudados. Então acho que sim, que existem várias psicanálises que se complementam, não se excluem. E na verdade, quando estamos trabalhando com um paciente, a nossa mente faz a nossa própria teoria. Podemos brincar e dizer que existem pacientes mais Winnicottianos, outros mais Freudianos, mas é a nossa mente que vai buscando, entendendo o que está acontecendo com aquela pessoa. 

 

Como é que surgiu o seu interesse pela psicanálise?

 

Foi bem interessante. Em Porto Alegre, na década de 60/70, mais ou menos, a psicanálise estava em evidência. Todos os cargos na área da saúde mental eram exercidos por psicanalistas, o chefe da saúde mental, o diretor do hospital psiquiátrico e vários presidentes da sociedade de psiquiatria do Rio Grande do Sul. Estes locais desenvolviam ideias psicanalíticas, faziam cursos de psicanálise para os estudantes de medicina, então, enquanto estudante de medicina, comecei a frequentar esses cursos e me interessei muito. Relação médico-paciente, relação mãe-bebé, todas estas áreas foram desenvolvidas durante a faculdade. Depois, fui para psiquiatria, e a minha formação psiquiátrica era uma psiquiatria dinâmica, já tinha a parte biológica, digamos assim, mas muita psiquiatria dinâmica, baseada na psicanálise, e acabei indo depois para a formação analítica. 

 

E ainda é assim? 

 

Não (risos), mudou bastante, atualmente a psicanálise ainda continua tendo algum destaque, mas bem menor. Outras áreas como a psiquiatria clínica, medicamentosa, a psicoterapia cognitiva comportamental e as próprias críticas à psicanálise mudaram essa situação. Hoje em dia é bem diferente, mas ainda tem destaque. 

 

Nós temos uma proximidade com Buenos Aires, então os fundadores da minha Sociedade foram-se analisar em Buenos Aires, voltaram para Porto Alegre e fundaram a nossa Sociedade Psicanalítica. Mas atualmente, além das outras áreas da saúde mental que referi, existem também inúmeros cursos de psicoterapia. Inúmeros! De todos os tipos, dentro da Universidade, fora da Universidade, que formam psicoterapeutas, mas a maioria acaba não se interessando em fazer uma formação analítica, propriamente dita. 

 

 

Nasceu em Porto Alegre?

 

Eu nasci em S. Paulo. A minha mãe era de Porto Alegre, o meu pai de S. Paulo, se conheceram num baile em S. Paulo, começaram a namorar e aí a minha mãe se mudou para S. Paulo. Mas, depois de um tempo, S. Paulo se tornou muito grande e agitado e o pai da minha mãe, o meu avô, morava em Porto Alegre e insistia muito para que a filha voltasse. A minha mãe e o meu pai acabaram aceitando a vontade do meu avô e voltámos todos para Porto Alegre, o que foi bom porque é uma cidade menor e, embora seja mais provinciana, a qualidade de vida é melhor. 

 

A minha adolescência foi uma adolescência, vamos dizer assim, tumultuada porque foi bem durante a época da ditadura. Então teve uma série de protestos, manifestações em que participámos e tudo na clandestinidade. Foi uma época bem agitada, em protesto contra a ditadura. Aliás, situação que atualmente estamos revivendo no Brasil, porque o atual governo tem tomado medidas muito autoritárias, anti-democráticas, atacando programas sociais, conquistas sociais importantes e inclusive contra as universidades públicas. A psicanálise não é muito valorizada.  As áreas mais produtivas, como a  engenharia, economia, é que estão sendo valorizadas e as áreas humanas estão sendo desprestigiadas, inclusive com perda de verba do governo para pesquisas, estudos e faculdades das áreas humanas, incluindo a psicologia. 

 

Estava a pensar se a sua participação nesses movimentos, na adolescência, influenciou o seu interesse pelas relações humanas?

 

Sim, eu acho que sim. Sempre tive, desde essa época, uma preocupação com o outro, com o ser humano, com a liberdade pessoal e daí o caminho para a psicanálise. A psicanálise sempre foi uma ciência transgressora, subversiva. Então, de uma certa maneira, têm ligação, com essa coisa de não conformismo. De poder pensar sobre as coisas, de poder mudar.

 

De liberdade?

 

Sim, liberdade! Liberdade de pensar, de mudar, de se encontrar.

 

Para quem não sabe o que é a psicanálise, o que é que podemos dizer que pode trazer?

 

Bom, nesse sentido eu sou Bioniano fanático (risos). Estou brincando, mas eu acho que o Bion diz uma coisa com a qual eu concordo muitíssimo, que é: a psicanálise é uma relação humana que pode ajudar a pessoa a ser ela mesma. Quanto mais a pessoa puder ser ela mesma, melhor vai-se sentir e melhor vai poder fazer as suas opções, por mais difíceis que sejam. 

 

Por isso a psicanálise continua a fazer sentido nos dias de hoje?

 

Exactamente, isso é uma coisa que não tem um tempo limitado. Em qualquer momento, em qualquer época, quanto mais as pessoas forem elas mesmas, melhor elas se vão sentir, melhor vão poder também se responsabilizar pelo que fazem, tanto para cuidar das suas vidas, como em relação aos outros.

Clique na seta para subir para o início da próxima coluna.

 
IMG_7679.jpg
 

 

Muitas vezes há uma grande confusão entre responsabilidade e culpa. Como é que a psicanálise ajuda a que as pessoas se responsabilizem, em lugar de se culparem?

 

É verdade, uma coisa é se responsabilizar e outra é ficar culpado e se ir criticando e aumentando, vamos dizer assim, a rigidez do seu super-ego, que vai só trazer mais problemas. Ao passo que a responsabilidade implica, inclusive num movimento positivo, tentar fazer alguma coisa para corrigir aquilo, ou para mudar aquela situação, em que nos sentimos responsáveis. Implica uma atitude, uma reparação, dando a possibilidade de se sentir melhor consigo mesmo e com o outro. 

 

O que é que, enquanto psicanalistas, podíamos fazer no sentido de facilitar a compreensão do que é a psicanálise?

 

Acho que ajuda muito participar em atividades interdisciplinares. Eu sempre procuro participar de ações interdisciplinares e a nossa própria Sociedade, em Porto Alegre, também tem atividades com artistas, com discussão de teatro, de filmes. As atividades fora da Sociedade, na comunidade, ajudam a divulgar a psicanálise. É importante sair do consultório. Divulgamos atendendo bem os nossos pacientes, os nossos pacientes se sentindo bem, mas uma parte muito importante é poder sair do consultório, se relacionar com outras disciplinas, participar de atividades comunitárias.

 

A Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre tem um programa com professoras de crianças pequenas, dos 0 aos 6 anos. As reuniões são na nossa Sociedade, mas os colegas que trabalham neste programa vão muitas vezes às escolas. Esse programa já tem muitos anos e no começo os analistas achavam que iam, vamos dizer assim, ensinar as professoras sobre desenvolvimento infantil e tiveram uma grande surpresa quando começaram eles a aprender com as professoras. Estes colegas foram cada vez mais construindo conhecimento sobre violência, sobre abuso, sobre sexualidade nas escolas, e de como lidar com essas situações, em conjunto com as professoras. Esta aprendizagem mútua é muito boa. 

 

Ou seja, é mais um trabalho no sentido da escuta dos professores, ouvir as suas dificuldades, oferecendo-lhes um espaço para as pensar e elaborar.

 

O mais impressionante é que muitas vezes eles já sabem como fazer, mas falta-lhes acreditar na sua própria capacidade e isso muda quando começam a reunir, a ser escutados e a ser valorizados. Há por vezes situações muito difíceis de crianças muito carentes ou abusadas, pais drogados, pais que abandonam, pais alcoólicos e os professores encontram soluções, que não teríamos pensado, de como lidar com essas situações. Realmente é uma situação em que temos muito a aprender, que gera muito conhecimento e é muito rica para ambos os lados.

 

As atividades de que falou inicialmente são ações de divulgação da psicanálise, enquanto este é um programa de intervenção na comunidade, que está a dar origem a mudanças.

 

Exactamente, este trabalho mais continuado é um trabalho mais transformativo. 

Clique na seta para subir para o início da próxima coluna.

 

Há alguma coisa que o Sérgio gostasse de dizer sobre o seu trabalho?

 

Sim, eu gosto muito de atender pacientes, gosto muito da clínica psicanalítica, sinto falta quando não estou atendendo, ou trabalhando, faz parte da nossa vida. 

 

Para além dos aspetos  que já referiu, como conhecer outras psicanálises e partilhar experiências com colegas, o que teve esta participação na IPA de mais relevante para si?

 

Primeiro, trabalhar sob a presidência de uma mulher. Houve, pela primeira vez, uma presidente mulher na IPA e foi uma experiência muito interessante. Virginia Ungar, junto com Sergio Nick, o vice-presidente, desenvolveram um programa voltado para a comunidade. A nova presidente eleita da IPA, Harriet Wolfe, quer dar continuidade a este programa porque o considera muito importante. Então, acho que essa ideia da IPA na comunidade tem tudo a ver com o que estamos falando, de mostrar mais a psicanálise, juntar a psicanálise com outras áreas do conhecimento e participar de uma maneira mais importante na comunidade fora do consultório, e trabalhar em conjunto com as pessoas que já estão intervindo nessas áreas.

Na América Latina, Brasil, Argentina, há muitos projetos de psicanálise na comunidade.

 

É verdade, até mais na Argentina, já há muitos anos que trabalham em hospitais pediátricos, com crianças com câncer, com pacientes com câncer. Têm toda uma tradição de anos de trabalho fora do consultório, na própria comunidade.

 

Chamou-me a atenção ter sido na presidência de uma mulher que surgiu o primeiro comité ligado ao trabalho psicanalítico na comunidade: IPA na comunidade. O feminino é mais associado ao cuidado, à abertura aos outros. Será que há alguma ligação?

 

Ainda podemos fazer essa relação, mas vou defender o meu lado, não só o feminino das mulheres, mas o lado feminino de todos nós, homens e mulheres (risos).

 

Todos nós temos um lado feminino e masculino, gostaria de falar sobre isso?

 

A nossa sexualidade é sempre bissexual.Temos um lado masculino e um lado feminino. Tem um cantor brasileiro, o Gilberto Gil, que descreve muito bem isso numa música sobre o Super-Homem em que ele diz que sempre pensou que ser homem bastaria para ter tudo o que quisesse na vida até que ele descobriu o seu lado mulher, que era o lado melhor que tinha dentro dele. Ele canta essa música, que é muito bonita e ilustra muito bem o que estamos falando e realmente, na nossa formação, como pessoas, a nossa mente é sempre bissexual. A gente se identifica com uma mulher, se identifica com um homem.

 

Há mais alguma coisa que gostasse de acrescentar? 

 

Foi muito bom te conhecer em Porto Alegre, há uns anos, neste programa de intercâmbio da IPSO (International Psychoanalytical Studies Organisation), acho o Visiting Candidate Program (VCP) um programa muito bom. É ótimo para os candidatos conhecerem outras psicanálises, como falámos, e as pessoas se conhecerem também.

 

Estabelecem-se relações e vínculos que se mantêm. É distinto conhecer uma pessoa num congresso ou em seminários de formação. Cria-se uma relação diferente, há uma continuidade, o participar no grupo dá-nos uma visão completamente diversa de quando se está presente apenas numa atividade pontual.

 

Sem dúvida.

IMG_7669.jpg
 

 

 

Foi bastante surpreendente para mim o impacto dessa experiência, sinto que fiquei mais aberta a outras formas de estar e de fazer. 

 

Isso é uma contribuição do Stefano Bolognini, enquanto anterior presidente da IPA, que quis salientar que a IPA é uma organização internacional e que precisamos ter uma mentalidade internacional e conhecer outros colegas e outras pessoas. Eu acho que a Virginia está dando continuidade a essa ideia e os intercâmbios são uma ótima oportunidade para isso. 

 

Sempre imaginei que com as redes sociais e as novas tecnologias as pessoas ficassem mais abertas à diferença, mas somos talvez menos tolerantes à diferença e menos tolerantes ao estranho, vemos o estranho como uma ameaça e não como qualquer coisa que nos pode trazer mais valias.

 

Sim, realmente estamos vivendo um período de intolerância. No Brasil, no mundo, nos Estados Unidos, há muita intolerância. Acho que a internet pode ajudar a aproximar as pessoas, mas também pode ajudar a afastar, a manter essa intolerância, porque é muito fácil, é só apertar um botão, e não é mais meu amigo, e desliga o contacto. Ficou muito mais difícil de se aproximar do outro e ter uma relação mais próxima.

Clique na seta para subir para o início da próxima coluna.

 

Acha que a intimidade mudou?

 

A intimidade mudou, não quer dizer que seja ruim, em muitos casos é muito bom, mas em outros casos atrapalha. 

 

Em termos individuais, o que é que podemos aprender com o estranho?

 

O estranho é bom, em princípio, porque sem estranhamento não há crescimento. O estranho nos obriga a pensar. Citando Meltzer “o mistério nos faz pensar”, activa a nossa imaginação, activa o nosso sonho, activa a nossa área simbólica, então o estranhamento é importante para nós, a inquietude, a surpresa. 

No consultório a surpresa é muito importante. Quando estamos numa rotina e de repente surge alguma coisa surpreendente com o paciente, é muito bom porque vai-nos fazer pensar, imaginar. Muitas vezes uma surpresa qualquer com a própria fala, a gente diz alguma coisa e de repente se surpreende, como é que disse aquilo, e passa a pensar o porquê que disse aquilo e aquilo é muito produtivo. Então eu acho que o estranho, a estranheza, a surpresa, o inquietante tem um efeito muito positivo.

 

Estamos a falar de como o inconsciente emerge numa análise.

 

Emerge, é a partir do momento que ele emerge que podemos entrar em contacto com ele e isso acontece saindo muitas vezes da rotina e do consciente para deixar que apareça esse outro lado.

 

Revisando a entrevista agora, depois de iniciar a pandemia que nos pegou a todos de surpresa, posso acrescentar que a estranheza e o espanto pela terrível condição que se abateu sobre todos nós, provocando perdas irreparáveis, também propiciou novas e ricas experiências, como os atendimentos online e por telefone, nos permitindo seguir trabalhando. Além de permitir reuniões científicas entre colegas de todo o mundo. As estranhas mudanças provocadas pela pandemia permitiram a abertura de novos caminhos.

Serio Lev.jpg