Celeste Malpique

Psicanalista

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Quem é a Celeste Malpique?

 

Passei a minha infância e adolescência, dos 4 aos 17 anos, em Luanda, Angola, onde o meu pai foi professor de História e Filosofia no Liceu Salvador Correia. O meu pai foi escritor ensaísta e publicou vários livros. A minha família é muito pequena e quase se limita aos pais e duas filhas, pois ao sair para África se afastou da família de origem. Vivemos sempre juntos, em Luanda, e depois no Porto, até à morte dos meus pais. No Porto fizemos a nossa formação universitária e ali casámos.

A minha irmã mais nova, arquiteta, foi professora universitária, faleceu em 1999 e, da família, resto eu.

Licenciei-me em Medicina na Universidade do Porto e especializei-me em Psiquiatria e Pedopsiquiatria. Doutorei-me em Psicologia Médica no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da UP, onde lecionei Psicologia Médica durante 20 anos.

Fui sensibilizada para a Psicanálise por João dos Santos em Lisboa e pelo Estágio que fiz como bolseira da OMS em Genève (1963).  Fiz análise pessoal em Lisboa com Francisco Alvim, de 1966 a 72. Fui sempre muito curiosa na minha formação, nos Seminários realizados no Instituto de Psicanálise em Lisboa, orientados por Pierre Luquet. Tive como supervisores João dos Santos, José Flores e Pedro Luzes. Sou membro titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA ) desde 1987.

Sou afável, mas bastante independente e acabei por ser pouco sociável porque dei sempre uma importância muito grande à atividade profissional e fiquei com pouco tempo para uma vida social mais intensa. Casei com um colega médico que era pouco sociável, mas viajámos muito. Não tivemos filhos.

 

 

Tenho paixão pela Literatura e Poesia (estudos sobre Fernando Pessoa). 

A leitura tem-me sido bastante útil nesta pandemia, neste confinamento, porque a cultura foi sempre, para mim, fonte de prazer. Tenho posto as minhas leituras em dia, escrevo artigos e tenho já uns 5 livros publicados.

 

Li no blogue da SPP um poema seu, não sabia que escrevia poesia.

 

Eu também não (ri-se).

Foram coisas espontâneas que estão ligadas justamente ao Espaço Potencial de Winnicott, um impulso criativo, quer dizer, as rimas surgiram espontaneamente e aliviou-me um bocado a angústia do isolamento. 

 

O meu trabalho para membro titular da SPP, feito em 1987, foi sobre “A capacidade de estar só”, conceito de Winnicott muito interessante e que agora em pleno confinamento pela Pandemia é posto à prova, não acha? Penso publicá-lo na Editora do Vasco Santos “Freud e Companhia”. 

 

Como foi a experiência de estar em África? Tem muitas memórias?

 

Tenho imensas, imensas. Foi espectacular!

Foi um estímulo sensorial inesquecível, tudo de uma violência e de uma exuberância impressionante, desde os pôres-do-sol até à selva, à silhueta dos imbondeiros, às chuvadas torrenciais, às trovoadas brutais, à nuvem de gafanhotos encobrindo o sol, um espetáculo permanente que a Natureza oferecia. 

Eu fui para Luanda com 4 anos e a Manuela, a minha irmã, com 2, e voltámos na adolescência. Foi viver situações, como criança e adolescente, com muita intensidade e com uma ligação muito grande à Natureza. 

Aliás, os meus pais estimulavam muito isso, fazíamos colecção de conchas, 3 meses de praia, enfim, foi muito agradável a estadia em Luanda. Tinha pais muito estimulantes, muito apoiantes, muito atentos à nossa informação e ao nosso conhecimento do mundo! 

Entretanto no regresso a Portugal aconteceu que o meu pai ficou colocado em primeiro lugar no Porto e em segundo em Lisboa. A nossa ideia era ficar em Lisboa, porque os meus pais são alentejanos e a proximidade de Lisboa era maior. Aliás, eu nasci em Lisboa. Ficámos no Porto, mas sentíamos que éramos do sul.

 
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Entretanto, fiz a minha psicanálise e a formação em Psicanálise em Lisboa, renasci em Lisboa como costumo dizer. Para lá me desloquei durante 6 anos semanalmente… mais uma aventura!

O Dr. Jaime Milheiro falou-nos da exigência que foi deslocar-se semanalmente a Lisboa para a sua formação e análise.

 

Certo! O nosso diretor, Pimentel das Neves, era muito aberto, um indivíduo com vistas largas, autorizou a nossa formação e foi assim que a psicanálise entrou aqui no Norte.

Havia umas experiências esporádicas, mas não com este carácter mais sistemático de formação que eu e o Milheiro fizemos, os seminários, as supervisões, a memória e depois o trabalho para titular. Foi uma experiência longa, em relação a mim desestabilizou-me um pouco a vida conjugal mas enfim, procurámos resolver isso, o meu marido era bastante tolerante com os meus interesses profissionais e culturais.

 

Trabalhei sobretudo com crianças, adolescentes e famílias, criei de certo modo o Centro de Saúde Mental Infantil do Porto e, portanto, tive alguma importância na formação de muitos técnicos ligados a esta área, pedopsiquiatras, assistentes sociais, enfermeiros, educadores, psicólogos.

 

Em Lisboa, tive um contacto próximo, muito útil, muito importante com João dos Santos. De certo modo pertenço à Escola de João dos Santos, que trabalhava no Hospital Júlio de Matos e que sempre demonstrou uma intuição particular para lidar com crianças e com famílias. Em Portugal, foi pioneiro da psiquiatria infantil e da adolescência. Foi uma pessoa fundamental em Lisboa, mas conseguiu a adesão de vários técnicos do país; eu sou, portanto, uma delas.

 

Fiz ainda uma formação com o Prof. Ajuriaguerra, em Genéve, em psiquiatria infantil; já muito estimulada por João dos Santos em Lisboa, não tive dificuldade em me adaptar.

 

Com Pedro Luzes contactei em Genéve, eu pertencia à equipa onde ele estava. O Pedro Luzes na altura estava no final do estágio e da análise dele. Depois fiz em Lisboa análise com Francisco Alvim, que também tinha chegado há pouco tempo de Genéve. Foram estes 3 psicanalistas (FA, PL, JS) que criaram a SPP, eu pertenço, pois, à 3ª geração da SPP.

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Tudo isto implicou um investimento pessoal grande, mas mostra o interesse que esta atividade conseguiu despertar e é um bocado triste ver como a psicanálise está hoje a ser considerada démodée e a Psiquiatria Infantil está encharcada de psicofármacos. Há muito menos pedidos de análise. Penso que os nossos Institutos deviam promover também a formação em psicoterapia porque o setting é diferente e exige outra formação, embora a análise pessoal seja sempre importante.

 

Eu e o Carlos Farate promovemos aqui, no Instituto de Psicanálise do Porto (IFTP), uma formação em Psicoterapia Psicanalítica. Foi uma experiência interessante, tivemos bastante adesão, foi um curso de 3 anos, mas não pudemos dar-lhe continuidade. A SPP não nos apoiou (a IPA não deixa!)

 

Bom, não tenho tido grande aceitação e acho que a Psicanálise não evoluiu, as Sociedades Europeias mantêm-se bastante conservadoras, muito elitistas, e os pedidos de análise têm diminuído em toda a Europa, e avançam outras propostas de intervenção terapêutica.

 

No fundo o que está a dizer é que os Institutos poderiam atrair um leque mais abrangente de pessoas para a formação.

 

Sim, desse grupo, que tinha 15 elementos, ficaram dois que estão actualmente a fazer formação em Psicanálise e foi o Curso de Psicoterapia Psicodinâmica que os sensibilizou.

 

Neste sentido, a formação psicanalítica como carreira deve ser uma opção pessoal. Um Instituto de Psicanálise divulga a teoria, mas devia dar aos candidatos a oportunidade de fazer psicanálise ou psicoterapia psicanalítica conforme um diagnóstico psicodinâmico apurado. A técnica é diferente conforme o caso e, para tal, o psicanalista coloca-se num tempo interno diferente e gere uma transferência/contratransferência também diferente, porque o setting é diferente. Isto ensina-se, aprende-se com a discussão dos casos e nos Seminários. A supervisão é a parte mais importante da formação, aprende-se com a experiência clínica; a Teoria lê-se nos livros. Só com esta dimensão pragmática e clínica a Psicoterapia Psicodinâmica pode manter viva a divulgação da Teoria Psicanalítica e competir com as terapias Cognitivo-Comportamentais. Na minha opinião, a Psicanálise Contemporânea é uma Estratégia de Comunicação Intersubjetiva, em que o terapeuta usa a própria personalidade (burilada pela sua própria análise e pelo recurso sistemático à supervisão).

Exigir uma longa formação psicanalítica (análise pessoal, Seminários de 3 anos e supervisão - nunca menos de 6 anos) parece-me exigir demais para ser psicoterapeuta, visto que os pedidos de análise têm diminuído.

 

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O certo é que os profissionais que fazem formação em psicoterapia psicanalítica, mesmo que não venham a ser psicanalistas, têm um olhar diferente sobre o que é a psicanálise. É também uma forma de a manter viva nas instituições.

 

Até para os psiquiatras será uma forma diferente de olhar o doente, de o abordar, de o compreender na sua história. A Psiquiatria está desinteressante, de tão farmacológica que se tornou. A saúde mental é esquecida.

 

Para o quadro “X” que vem no DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), são os psicofármacos “Y” e a entrevista dura 10 minutos e daí a 6 meses têm nova consulta. Isso pode melhorar um bocadinho o humor, mas não melhora o autoconhecimento, que é um factor de cura importantíssimo.

 

Já tenho tido clientes que dizem: “Sabe eu estive deprimido, muito deprimido, mas o meu psiquiatra disse que isto era um problema químico,  uma questão de serotonina. Foi um grande alívio para mim!”. E eu perguntei: “Então, mas porque é que está aqui se ficou tão aliviado?”. “Ah, ando assim um bocado esquisito, sabe? Ando esquisito”. Arranjam um nome para aquilo que sentem (uma doença química), mas não pensam no que realmente aconteceu e está a acontecer e pode ser mudado.

 

Isso leva-nos a uma pergunta: o que pode uma pessoa ganhar com uma análise?

 

Pode ganhar justamente um autoconhecimento que vai ser muito importante na mudança para ultrapassar os sofrimentos e sintomas. Para isso também não são precisas análises de 10 anos. Ou melhor, quando se faz uma análise tão longa, não digo que não se façam melhor os lutos e as desidealizações, que não se conquiste mais liberdade interna, está provado que dá resultado, mas é algo que o próprio vai elaborando por si, eu não alimento dependências. Quando a pessoa está mais ou menos equilibrada, deve ir à sua vida. A vida também nos ensina muito, é ou não?! É bom fazer uma análise, sem dúvida, mas depois a vida ajuda-nos a compreender e resolver muita coisa.

 

Então há momentos em que diz: “Já trabalhou o que veio trabalhar, agora vá viver a sua vida”.

 

Agora vá à sua vida! A separação, o luto, é um trabalho que tem que se preparar quase desde o início. Mas, com efeito, há muito trabalho pessoal que tem que continuar a ser feito, às vezes até é mais eficaz o que se faz a seguir, sozinho, do que propriamente a fase de arranque em que foi precisa ajuda. Aliás, desejar fazer análise, aceitar ajuda, é meio caminho andado!

 

A importância da análise, no fundo, é capacitar a pessoa para que sozinha possa continuar a fazer um trabalho de auto-análise.

 

Claro, é isso que o Freud nos ensinava no artigo “Análise terminável e interminável” porque a “interminável” é aquela que nós continuamos pela vida fora e a “terminável“ é a que temos de fazer com um analista, ultrapassar resistências e descobrir uma nova relação.

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Mas há casos em que é preciso uma análise mais longa.

 

Sim, há casos que precisam, mas a partir de certa altura é um apoio, pode transformar-se numa psicoterapia de apoio. Isto é como na Medicina, os diabéticos têm que fazer tratamento toda a vida. Há muita doença crónica. As pessoas hoje sofrem mais de depressões pela sua própria história e por fatores da organização social (competição, culto do trabalho ou ameaça do desemprego, isolamento, pouca intimidade, insegurança familiar, ligações afectivas precárias, sexualidade banalizada, etc.). Mas há patologias limite que exigem análises mais longas, e também as há que não obtêm indícios de mudança.

 

Como médica, sei que temos que ter uma certa atenção no diagnóstico psicodinâmico para fazer a seleção de casos para uma análise ou para uma psicoterapia. O critério de seleção de candidatos para futuros psicanalistas é difícil e deve obedecer a seleção colegial. Aqui, estou de acordo que uma psicanálise mais prolongada pode ser necessária e deve prolongar-se durante a tomada do primeiro analisando em supervisão.

 

Fazer uma psicanálise pessoal é um processo de enriquecimento para o exercício da psiquiatria, da medicina, do apoio psicológico, com vista ao equilíbrio pessoal. Espera-se que aumente o autoconhecimento, ocasione alguma mudança, leve à resolução de conflitos, alivie sintomas e melhore as relações interpessoais, mas há falhas no SELF por vezes intransponíveis.

 

De onde lhe vem a sua apetência pela escrita?

 

O meu pai era professor e muito estimulante da intervenção do aluno. Que fosse o aluno a descobrir. Ele era professor de Filosofia e punha o sumário no quadro e dizia: “Bom, hoje vamos falar sobre este tema. Então vamos lá ver, o que é que pensam? Naturalmente já pensaram sobre estas questões, gostaria de vos ouvir, não tenham receio de dizer o que pensam. Os alunos achavam aquilo muito original, muito diferente do que era costume. No fim, ele agarrava naquilo que tinham dito, enfim, sempre incompleto ou mesmo ingénuo, fazia uma síntese e a partir dela e de forma dialogante dava a aula, o que a tornava particularmente estimulante. Ora, comigo e com a minha irmã foi muito assim, o meu pai: “Não há nada de gramáticas, nada disso, é ler e escrevem como estão a pensar”. Às vezes dava-nos uns Cartoons do Jornal e propunha: “Agora façam uma redacção sobre isso, o que quiserem, pode ser curta". Tínhamos que fazer, era o trabalho que tínhamos lá em casa. A verdade é que, tanto eu como a minha irmã, tínhamos bastante facilidade a escrever porque não estávamos com muitos torcidinhos e muitos adjectivos, passamos do pensamento para a escrita e a coisa sai com uma certa facilidade. Líamos um texto e tínhamos de fazer uma síntese por palavras nossas. Não se decorava.

 

Evidentemente que as coisas foram-se aprofundando e houve algum progresso nesse aspecto. Eu tenho um grande interesse pela leitura, por isso também me interessei por algumas personalidades portuguesas. Tenho dois estudos sobre Fernando Pessoa, que tiveram algum êxito, numa perspectiva psicanalítica e com alguma originalidade, acho eu, e tenho feito outros trabalhos sobre a relação de Fernando Pessoa com Mário Sá Carneiro; outro sobre Agustina Bessa-Luís. Tenho feito algumas comunicações sobre Psicanálise Aplicada. A primeira foi a minha Tese de doutoramento sobre “A Ausência do Pai” (1985).

A psicanálise sempre ocupou muito espaço na sua vida.

 

Sim, sim, segui muitas crianças e famílias. Ultimamente, dou preferência a análises de adultos, formação e supervisão de candidatos. Frequentei regularmente os Congressos da Fédération Européenne de Psychanalyse (FEP) e da IPA. Um psicanalista não se deve isolar. Os meus autores preferidos são: Winnicott, Bion, André Green, Grinberg, Antonino Ferro, Otto Kernberg, Thomas Ogden, e a intersubjetividade, um dos meus temas de eleição.

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O que é preciso para ser um bom analista?

 

Não sei se podemos dar indicações muito taxativas porque há personalidades muito diferentes que foram bons psicanalistas. Desde Winnicott, que foi pediatra e que era tão aberto e comunicativo, ao Bion e ao Green, que eram muito mais intelectuais e abstratos.

 

Penso que é preciso ter uma grande curiosidade pelo nosso mundo interno, por conhecer as pessoas e ajudar as pessoas a conhecerem-se, fazer uma leitura intersubjetiva intuitiva, sem esforço, em atenção flutuante, julgo que isso é absolutamente fundamental.

 

Se tivesse de deixar uma mensagem aos novos analistas seria que, apesar de exigir algum sacrifício, é sempre de tentar a conciliação entre a atividade privada e o trabalho institucional. Não ficar confinado ao gabinete privado. Manter a abertura e contactos com o público, com a Universidade, com o Ensino, e interesses culturais. Acho que tive um contacto com o país real trabalhando nas Instituições e em gabinete privado.

 

Dizia que a psicanálise está a ficar envelhecida.

 

Há uma crise porque o setting proposto é de 3 sessões por semana e dura entre 4 a 5 anos, o que não tem muita adesão na nossa época. Quando é que uma pessoa, neste ritmo tão acelerado em que vivemos, que quer melhorar rapidamente, quer é um comprimido que resolva a ansiedade e a depressão, adere a uma proposta destas? Não é muito compatível. Em todo o caso, eu continuo a achar que é um factor de enriquecimento muito grande. Até porque, como eu estava a dizer há bocado, quando vai a um psiquiatra tem uma consulta de 10 minutos, é-lhe receitada medicação e vai lá outra vez dali a 3 meses e ele pergunta: “Então como é que se sente? Tem dormido melhor? Está menos ansioso? Está menos deprimido? Ah, então vamos mudar aqui um bocado esta medicação, ...”. E o indivíduo em vez de criar uma dependência que no fundo é uma boa dependência, porque é a dependência que nós precisamos na vida para crescer, cria a dependência farmacológica.

 

Numa análise cria-se alguma dependência que é um factor de crescimento, é um factor de estímulo e de intercâmbio e de aprendizagem muito grande. Durante esse tempo há um enriquecimento enorme, não há uma droga que se toma para resolver as coisas. Não me parece que esta forma tão imediatista de querer resolver tudo seja eficaz, cria a dependência farmacológica. A mensagem cognitvo-comportamental, mesmo bem explicada, vem de fora, não é uma motivação pessoal, é o que o outro disse ser conveniente e correto. Bom, critica-se a Psicanálise porque é longa, cara e origina dependência.

 

Já fizemos tantos progressos sobre as hipóteses geniais de Freud. Há que aproveitar esses avanços para nos tornarmos mais eficazes e mais rápidos nas nossas intervenções. Sabemos agora melhor se vale a pena continuar ou devemos parar, ou se vale a pena sequer iniciar uma psicanálise. Percebemos melhor o impasse, o enactment, o jogo da transferência/contratransferência.

 

 

Vê a psicanálise como preventiva ou como resolutiva?

 

Preventiva é, com certeza, porque fortalece a pessoa, mas também é muitas vezes curativa, o sintoma desaparece com uma certa estabilidade porque há uma transformação, sobretudo quando é possível fazer uma nova relação.

 

Há uma boa idade para se fazer psicanálise ou qualquer idade serve?

 

Eu penso que tem que haver alguma maturidade.

 

Mas trabalhou durante muitos anos com crianças.

 

Fazem-se psicanálises a crianças, mas esses são geralmente bastante doentes. Há situações graves em que realmente se tem obtido bons resultados, tirando o autismo, que é uma patologia muito grave, corresponde à psicose e à esquizofrenia num adulto. No COCAP (Comité de Psicanálise de Crianças e Adolescentes da IPA), que supervisionei no Porto, obtiveram-se resultados muito interessantes fazendo 3 sessões semanais durante um ano, mas tivemos pais muito colaborantes, o que nem sempre acontece.

Em todo o caso, também há intervenções comunitárias interessantes que têm resultado e psicoterapias a crianças em que também se acompanham os pais.

 

Alguma vez na sua vida esteve envolvida em projectos comunitários?

 

Sim, uma das coisas mais interessantes que promovi no meu serviço de psiquiatria infantil foi criar grupos de 8 a 10 crianças no período de latência (6 a 10 anos), que brincavam livremente e tinham 2 terapeutas a assistir que davam apoio à evolução do grupo. As crianças gostavam imenso, brincavam, tinha um aspecto um bocado psicodramático e esta experiência está até publicada numa das revistas da SPP. Entretanto, entendemos que era vantajoso, de 15 em 15 dias, fazer um grupo de pais desses mesmos miúdos. Então os miúdos tinham uma sessão semanal e os pais uma reunião quinzenal. A assiduidade dos pequenos tornou-se muitíssimo maior, os pais envolveram-se e tiveram muito interesse e as crianças melhoraram imenso. Situações de terrores nocturnos, fugas, furtos, mentiras, baixo rendimento intelectual, vários tipos de dificuldades que apareciam na consulta, foram ajudadas dessa maneira por 2 psicólogos, com imenso êxito, portanto foi uma intervenção em grupo que foi muito útil. As duas terapeutas, Fátima S. Cabral e Isabel Quinta da Costa vieram a ser psicanalistas da SPP. O Filipe Sá, também psicanalista, pertenceu a um grupo desses aqui no Porto.

 

Estava a pensar que, para si, a psicanálise nunca foi só o consultório.

 

Não, não! Eu sou um bocado da geração em que de facto era assim, aqui e no resto da Europa. Em que o psicanalista ficava limitado ao seu gabinete e também achavam mal que a pessoa continuasse a exercer psiquiatria institucional. Eu nunca achei isso, nem isso alguma vez me prejudicou e penso que foi uma vantagem para a abertura à saúde mental. Calculem, permitir que as crianças brinquem, pintem e que os adultos se afirmem sem serem censurados, alguma vez me incomodou?!

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