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Psicanalista

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Cristina Fabião

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Quem é a Cristina Fabião?

 

Sou psiquiatra, psicanalista, psicodramatista, com alguns anos de experiência como docente universitária após ter concluído o doutoramento. Tenho tido um grande interesse pela clínica, para ver os casos, ver os pacientes, em várias perspectivas. Dentro da área psicanalítica, tentei perceber como é que a teoria podia ajudar a clínica, mas compreendi que esta coloca questões muito difíceis de resolver. 

 

Para falar de quem eu sou, de quem somos, importa sinalizar que as palavras talvez não sejam o veículo mais adequado para nos darmos a conhecer, até a nós próprios. O conceito de becoming [o tornar-se] de Bion, direi de uma forma muito simples, refere um processo de transformação contínua, em aproximação à verdade interior de cada um, que não tem tanto que ver com enunciados, mas com passar a ser outra coisa, talvez não ainda passível de ser ligada a palavras. Pense-se que, em cada momento, somos, em parte, alguém que não conhecemos.

 

Mesmo em relação à Psicanálise, vamos escolhendo de que forma queremos ser psicanalistas. É deixarmos umas coisas para podermos ser mais outras, dependendo daquilo que consideramos ser o mais importante, também o que nos vai atraindo mais. O elemento da escolha sobre aquilo em que queremos tornar-nos estará, consciente ou inconscientemente, sempre presente.

 

Fiquei ligada à palavra escolha. A vida é isso, um conjunto de escolhas, o que escolhemos deixar para trás e aquilo a que escolhemos ligar-nos para avançar.

 

Senão ficamos encerrados em imagens que são cada vez menos vivas, menos alimentadas pelo nosso desejo.

 

Como escolheu Medicina e como chegou à Psiquiatria e à Psicanálise?

 

Antes de ir para Medicina, estive numa turma-piloto de Matemática, durante a Reforma Veiga Simão. Não foi fácil decidir-me pela Medicina porque me sentia atraída também pelas chamadas Humanidades. Mas segui Medicina, o que me deu a possibilidade de comunicar com vários tipos de pessoas, de procurar conhecê-las. 

Nos primeiros anos da faculdade, depois do 25 de Abril, trabalhámos em bairros desfavorecidos do Porto, grupos de estudantes de Medicina e médicos, alguns docentes da Faculdade de Medicina do Porto. Fazia-se uma reflexão sobre a função social do médico e implementavam-se certos tipos de intervenções nos bairros. Desse grupo, faziam parte jovens psiquiatras que depois se tornaram muito conhecidos. Essa experiência atraiu a minha atenção para as perspectivas que esses psiquiatras abriam, mas quando fiz a disciplina de Psiquiatria, impressionou-me negativamente a forma como alguns doentes eram, por vezes, tratados e pensei que não me sentiria bem naquela especialidade. 

 

Depois do Serviço Médico à Periferia, soube de um jovem psicanalista, formado na Suíça, o Professor Eurico Figueiredo, que tinha regressado a Portugal. Trabalhava no Hospital Magalhães Lemos, no Porto, e dirigia o Programa de Formação dos Internos de Psiquiatria. Foi esse o motivo que me levou a escolher o Internato de Psiquiatria nesse Hospital.

Tanto quanto isso é possível, procurava pensar por mim própria...

Procurava fazer as suas escolhas.

 

Exacto, talvez. No Internato de Psiquiatria, um dia por semana era dedicado à formação, pensada para fazer os internos contactarem com todo o tipo de escolas. Tanto podíamos ver um colega apresentar um caso ao psicanalista Carlos Amaral Dias de manhã, como, à tarde, podíamos ser nós a apresentar um caso clínico a Adriano Vaz Serra, uma referência nas Terapias Comportamentais no país.

 

Acabou por ser uma boa escolha.

 

Foi uma boa escolha, até porque me permitiu continuar em contacto com aquilo que eu pensava serem as Humanidades - áreas que hoje, para mim, não estão tão separadas da Psiquiatria e da Psicanálise. Chegamos assim à Psicanálise. Porquê? Porque no Hospital Magalhães Lemos, respirava-se psicanálise, falava-se, a propósito dos doentes, em termos psicanalíticos. O professor Eurico Figueiredo brincava um bocado com aquilo, introduzia uma dimensão lúdica na aprendizagem e era também muito atento com os mais novos. 

 

O que me levou a decidir fazer uma análise foi, por um lado, o contacto com os doentes no internamento; era muito duro esse contacto, como era duro perspectivar a vida próxima daqueles distúrbios. Observava as práticas dos colegas, havia pessoas realmente muito interessantes que seguiam as escolas das psiquiatrias alemã e francesa, com descrições de casos espantosas, de tão detalhadas, mas depois o resultado era, em grande medida, a prescrição de medicação. Então, achei que devia fazer algo por mim, para conseguir conviver, a vida toda, sem o uso sistemático e rígido do que chamamos defesas, com pessoas com problemas de saúde mental. E também queria oferecer mais aos doentes. Esse clima, aliado ao interesse em poder dialogar com a minha própria loucura, levou-me a pedir uma análise. Uma amiga da Medicina, quando escolhi a Psiquiatria, disse-me: “Ainda estás com muito bom aspecto, mas olha que isso perde-se”. [Risos]

 

Tendo sido aceite pelo Dr. Jaime Milheiro, iniciei uma análise. É uma experiência marcante. O próprio setting, quando o analista logra instituí-lo, põe em andamento dinamismos que nunca pensaríamos que pudessem surgir. Para tal, é importante o divã, mas, como todos sabemos, não é só o divã.

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Depois, fui admitida à formação para psicanalistas, realizada maioritariamente em Lisboa, já eu trabalhava em Braga. Reservava um dia e pouco por semana, na ida fazia a supervisão em Coimbra e, no regresso, a supervisão no Porto.  

 

Para quem fez a formação no Norte foi uma grande exigência. E o que a trouxe a Braga?

 

O meu marido veio para cá, leccionar na Universidade do Minho. Ele já tinha tido um convite para ir trabalhar de forma mais permanente em Lisboa, mas não tínhamos lá familiares próximos, os nossos filhos eram pequenos, e eu não queria mudar de local no que respeitava ao Internato, nem de analista, nem deixar a minha casa no Porto. [Risos] E, depois, já psiquiatra, eu tinha de me estabelecer em algum lado, não fazia sentido protelar essa decisão.

 

E achou justo ser cá.

 

Achei justo ser cá. Comecei a encarar a possibilidade de viver em Braga e eu, que tinha feito aqui o liceu e tinha aqui passado muito tempo em criança por causa do trabalho do meu pai, descobri uma cidade diferente. Mas custou-me deixar o Porto, o Porto é uma nação, como se costuma dizer! [Risos] 

 

Do período em que trabalhei no então Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de S. Marcos, em Braga, recordo vários momentos desafiantes. Em termos clínicos, destaca-se o caso de um homem que estava internado num serviço de ortopedia por causa de uma hérnia recidivante e que, durante o internamento, em dez dias, perdeu o cabelo todo. Nas primeiras consultas, a rigidez muscular era tanta que parecia que andava com uma armadura. Não conseguia dizer-me data nenhuma, quando tinha nascido ou casado, estava completamente desorganizado, sem sentido do passado, presente ou futuro. Depois de algumas consultas, combinei com ele passar a vir todas as semanas para “conversarmos”. Vinha de ambulância do hospital da sua cidade. Isto é fundamental por causa do setting…

No encontro seguinte, ele já balançava os braços ao andar. Isto foi algo que me foi dado ver. Eu combinei o setting com ele e foi apenas aquele. E o que aconteceu na musculatura daquele corpo, logo na primeira sessão? Foi isto. Depois veio a recuperar o cabelo. 

 

Num artigo que publiquei sobre este caso, há um gráfico em que se vê que o homem, no início, tinha, por exemplo, alta do internamento em ortopedia, era então internado em psiquiatria, quando tinha alta de psiquiatria, ia para casa e a mulher deixava de trabalhar, ficava de baixa. Depois, o gráfico começa a ficar mais branco, mais branco, ou seja, livre de internamentos e baixas: já não é internado em psiquiatria, já não é internado em ortopedia, a mulher já não fica de baixa quando ele está em casa. 

 

O setting, no fundo, estabelece-se a partir do momento em que lhe dá a garantia de um espaço semanal e da sua presença. Para si, qual é a importância do setting? 

 

Apetece-me responder-lhe assim: porque é importante ter uma casa? Eu posso sair à noite ou ir passar férias, deixar a casa, mas é importante que ela exista. Porque é importante ter alguém que seja “casa” para nós? Eu posso passar, em certos períodos da vida, muito tempo sem estar com essa pessoa e até sem comunicar com ela, mas saber que está viva, confiar nela e saber que pensa em mim... 

 

Muitos de nós já não têm memórias da casa da infância, mas o psicanalista enquanto “casa” permanece em nós, mesmo após terminarmos a análise. Os meus analistas continuam dentro de mim, enquanto lugar, enquanto “casa”. Achei essa expressão muito bonita.

 

Muitas coisas são possíveis quando os analistas são “casa” para partes desabrigadas de quem os procura. Nós, cada vez mais, tentamos acolher, conter, transformar e possibilitar a constituição, como material psíquico, de experiências que nunca puderam constituir-se como tal; estavam para além do que está recalcado. É claro que o setting é muitas vezes posto em causa, isso depende também da gravidade dos doentes que cada um aceita. Mas é importante que tentemos reinstituí-lo, exactamente para garantir segurança durante o processo, que tem as suas dificuldades, e que tentemos sempre perceber por que é que o setting sofre micro-roturas. É isso que nos vai trazer insights acerca da transferência e da contratransferência. 

 

E há também a questão do setting, relacionada com a atitude analítica do próprio analista. As teorias estão aí, mas é necessário “digerir" o que se lê. Ler psicanálise é um exercício de leitura muito particular. Escrever uma memória para membro aderente pode ser um sofrimento, se quisermos lá pôr o que passou pelo nosso aparelho mental… Manter o setting também é isso, é passar por alguma incerteza e vazio, conseguir manter-se disponível para o encontro, às vezes, sem se saber bem com o quê. Nem sempre se consegue.

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Isso leva-me à próxima questão, na sua opinião, o que se ganha com uma análise? 

 

O que se ganha é autoconhecimento e possibilidade de mudança. É alargar essa capacidade de elaborar assuntos que não conseguimos elaborar sozinhos. Também pode haver períodos de grande dificuldade em ver o que se passa numa análise. Como pode igualmente haver períodos de grande dificuldade na vida e na auto-análise. Penso que o ganho também passa por essa capacidade de ir pacientemente juntando factos psíquicos que não têm sentido. Portanto, nós podemos, ou devemos, idealmente, respeitar um registo de conter acontecimentos, ocorrências aparentemente sem sentido e que, mais tarde, vão possibilitar insights. Valorizo muito a atitude de espera, de abstinência, a adequada à situação clínica, dos analistas.

 

A capacidade de tolerar o não saber, em determinados momentos.

 

Sim, essa atitude é algo que temos de aprender, cada vez mais, nesta sociedade. Tanto a arte, como a literatura, a música, as religiões, as espiritualidades, quando seguem este caminho, tendem a valorizar o silêncio e a espera. 

 

Quando foi para Medicina, achou que estaria a afastar-se das Humanidades, mas percebeu que não, que a psicanálise se liga à literatura, ao cinema e à arte, ali na estante está o livro “A Psicanálise como Literatura e Terapia”. No entanto, referiu que esteve numa turma-piloto de Matemática e parece-me que isso se reflecte nos seus trabalhos - o artigo de que falava e a sua tese de doutoramento recorrem bastante à estatística. Achei curioso perceber esses interesses variados na sua vida. 

 

Eu tive de deixar esse espírito matemático. Gostava de matemática, mas esse tipo de pensamento, que exige uma capacidade de abstracção própria, perdi-o por falta de uso e por limitações da minha parte. Hoje, na estatística, pensa-se a várias dimensões e o meu cérebro já perdeu esse tipo de agilidade, sucumbiu em prol daquilo que penso que a Alexandra conhece de mim, agora. [Risos] Escolhas são escolhas. Eu adorava a geometria analítica, adorava transformar a álgebra em espaço. Mas também é verdade que, depois da tese, me sinto um bocadinho menos atrasada do que antes, quando leio artigos de psiquiatria com este tipo de análises. 

 

E também aceitar, reconhecer que, às vezes, precisamos de alguém que colabore connosco, que estamos dependentes de outros.

 

Sim. A elaboração de uma tese pode constituir-se numa situação de grande dependência. Há pacientes que nos consultam durante o processo de elaboração de uma tese, porque não aceitam a dependência em relação à sabedoria do outro; e outros que nos procuram porque vivem essa dependência de uma forma regredida, sem conseguirem discernir entre os aspectos em que estão dependentes e os outros aspectos da sua vida, em que não estão. É algo que remete para a elaboração da relação primária e eu senti isso. As teses, supostamente, servem para criar algum tipo de conhecimento novo, mas implicam uma grande dependência dos orientadores, dos que sabem. É um exercício psíquico interessante.

 

Imagino que sejam experiências muito diferentes, mas qual foi o desafio maior, a tese de doutoramento ou a tese para titular?

 

No trabalho para membro titular, eu estava apoiada por formações que tinha concluído e por muitos estímulos clínicos e grandes formadores que, então, também havia na Sociedade Portuguesa de Psicanálise [SPP]. A par da formação regular para psicanalista, fizemos seminários, ao fim de semana, durante anos, para discutir casos de pacientes não neuróticos que tínhamos em tratamento e para percebermos o que os conceitos de Bion queriam dizer na situação clínica. O que é o facto seleccionado? O que é o objecto psicanalítico? O que é o K? O que é o – K? Sentia-me muito envolvida em contextos que favoreciam o pensamento da psicanálise, enquanto actividade clínica. Mesmo o trabalho como directora de grupos de Psicodrama Psicanalítico havia começado já anos antes. 

 

Em relação à tese de doutoramento, “Rastreio e diagnóstico da somatização em cuidados primários: validação da Screening for Somatoform Symptoms - 2”, a definição dos objectivos do trabalho foi acontecendo ao longo do processo, mas com o foco na Somatização, desde o início. Traduziu-se em seis artigos, publicados em revistas com revisão de pares, tendo o autor da SOMS-2, o Professor Winfried Rief, aceitado ser co-autor do artigo de validação da R-SOMS-2. Nas análises estatísticas necessárias, tive um apoio que reputo de alta qualidade, ao nível do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar [ICBAS], da Universidade do Porto.

 

O meu orientador, o Professor António Barbosa, teve a gentileza de referir apenas no encerramento das provas de doutoramento, que, no início, ficara apreensivo com a focagem da tese na área da Somatização. Segundo entendi, a Somatização parecera-lhe um domínio espinhoso… mas concluiu nas provas que, afinal, se tinha chegado a bom porto.

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Devo dizer que o domínio da Somatização me era, de algum modo, familiar, quer na clínica quer na teoria, fosse pela via da psicanálise, fosse pela via da psicossomática. Isso facilitou o trabalho, apesar de tudo. O doutoramento permitiu-me outras condições para ensinar Psicanálise, durante 11 anos, no curso de Psicologia da Universidade Católica, em Braga, e contactar com a forma como os estudantes de Psicologia olhavam para este tipo de conhecimento.

 

Quando fez a sua tese, ainda se considerava o DSM-IV, agora o DSM-V já tem uma categoria específica para as doenças psicossomáticas. Apesar desta maior atenção, penso que, em muitos casos, continua a negligenciar-se a dinâmica psíquica que pode estar subjacente a determinadas doenças orgânicas.

 

Exactamente, é mesmo isso. A dinâmica psíquica que pode estar ligada a esses quadros não passa despercebida quando é um psicanalista a fazer as entrevistas, no trabalho empírico da tese… e, lamentavelmente, há muitos dados recolhidos que ficam por publicar.

E acompanhei os debates científicos entre os colegas que faziam propostas de nova nomenclatura ou redefinição das entidades nosográficas que deveriam figurar na DSM-V, no que concernia à área das então Perturbações Somatoformes, no DSM-IV. Esse debate transparece na discussão que é feita em alguns dos artigos publicados que integraram a tese que elaborei. 

 

Como já referi, a somatização não era um terreno novo para mim, clínica ou teoricamente, quando me inscrevi no Programa de Doutoramento. Antes, tinha convivido com colegas mais velhos que, pertencendo simultaneamente à Sociedade Portuguesa de Psicanálise e à Sociedade Portuguesa de Psicossomática, estimulavam o pensamento clínico em torno de todas estas questões: António Coimbra de Matos, António Barbosa, Jaime Milheiro, José Barata, Rui Coelho, entre outros. Alguns deles mantinham intercâmbio com o pensamento de figuras internacionalmente conhecidas nestas áreas e outros estavam também ligados à Associação Internacional de Psiquiatria de Ligação e de Psicossomática, tendo António Barbosa chegado a presidir à mesma. As relações internacionais influenciavam os colóquios e congressos. 

 

Como um exemplo do dinamismo em torno desta área, que presenciei e em que participei, também como membro da organização, refiro o “Symposium sobre Perturbações Afectivas”, realizado em Braga, em 1996, ao longo de três dias, onde esteve Graeme Taylor, uma das figuras conhecidas internacionalmente, que aliava o facto de ser psicanalista à investigação empírica em Psicossomática. Quem comentou a conferência por ele proferida foi Rui Mota Cardoso. A conferência de encerramento coube a Carlos Amaral Dias, comentada por António Coimbra de Matos. Foi um Congresso onde os conferencistas e palestrantes representavam várias escolas presentes na Psiquiatria e na Psicologia, para além da Psicanálise. 

 

A um outro nível, outro exemplo do dinamismo que a Psicossomática manifestava nessa altura no país, foi a realização do “24.º Congresso Europeu de Investigação em Psicossomática”, em Lisboa, em 2002. Nesta sequência, não posso deixar de referir a actividade editorial da “Revista Portuguesa de Psicossomática”, dirigida por Rui Coelho. Um dos artigos que vi aceite para publicação nesta revista parte do caso de um rapaz, que acordava e ia vomitar. Já tinha feito os estudos todos em gastroenterologia e não se encontrava causa orgânica, tratava-se de saber o que estas queixas teriam que ver com... 

 

A dinâmica psíquica.

 

A dinâmica psíquica. Quando não se tem acesso a instrumentos para ver o que se está a passar na dinâmica psíquica, fazem-se exames atrás de exames e não se encontra nada… O rapaz só vivia de noite, disse-me o nome dele, retirando o apelido do pai… e por aí fora. O que me impactou imenso, neste caso, e que foi extremamente positivo, foi a rêverie que eu fui fazendo. Conto no artigo o que fui falando com ele, dentro de mim. Foi possível neste caso, mas há doentes psicossomáticos com quem isto dificilmente acontece, que não despertam este tipo de resposta.

 

Porque há alguns pacientes psicossomáticos com os quais ficamos completamente em branco e no vazio.

 

Já não aguento mais este deserto.

 

Este deserto, é isso.

 

E este rapaz não me deu essa sensação de deserto, apesar de estar tão mal. Foi um bom começo.

 

Porque, efectivamente, ele não a deixou no deserto interno a si. Mas imagino que o instrumento de rastreio de perturbações somatoformes que adaptou e validou na sua tese de doutoramento nunca tenha sido usado com regularidade.

 

Não. Tive vários pedidos de profissionais dos Cuidados Primários de Saúde para usar o instrumento, dei a autorização e disse que estava interessada em conhecer os resultados, mas não tenho sabido de resultados. O meu orientador teria razão, trata-se de uma área onde não é fácil investigar. Eu própria não consegui continuar a publicar nesta área. Não foi o único motivo, mas um deles foi, sem dúvida, a forma como me liguei à Sociedade Portuguesa de Psicanálise, as responsabilidades que fui assumindo depois. Não sinto nostalgia em relação a isto, porque, na SPP, tenho apreciado colaborar em tarefas e responsabilidades livremente, sempre que me suscitam interesse e curiosidade, e que eu considere que está ao meu alcance desempenhá-las.

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Seria muito interessante saber a continuidade do seu trabalho, ou seja, se esse instrumento fosse aplicado de uma forma sistemática nos cuidados de saúde primários, que diferença faria na forma de abordar a pessoa e de responder à problemática?

 

A resposta está nas conclusões da tese. Para que serve? Para possibilitar o rastreio de perturbações somatoformes na população que recorre aos Cuidados de Saúde Primários, de forma a que as pessoas possam ser acompanhadas de acordo com as suas necessidades e não andarem a saltar entre especialidades sem uma resolução efetiva do seu problema. Mas para que é que isso serve, quando não há resposta nos serviços, depois de efectuado o rastreio? E também não sei se há essa resposta na clínica privada, dada a dificuldade que estes doentes encerram. Estes doentes implicam uma boa articulação entre os técnicos que se ocupam do paciente.

 

Sem dúvida.

 

É a mesma questão dos doentes que têm uma área psicótica muito activa, precisamos de ter uma boa articulação porque o doente pode precisar de ser internado. No caso da somatização, se não há uma resposta para dar, para que vamos especificar?

 

É uma boa questão, infelizmente a resposta pública na área da saúde mental é claramente insuficiente.

 

E porque é que vamos abrir a porta à desilusão? Dar-lhes a perspectiva de uma resposta que não existe? É das coisas mais nefastas que podemos provocar nos pacientes que já estão fragilizados. 

 

É verdade.

 

Esta ponderação é difícil sobretudo para quem está a começar. Por vezes, há dificuldade em concertar uma articulação com a Psiquiatria ou outras especialidades, quando se têm casos destes. E, cada vez mais, temos casos destes, de pessoas que estão em grandes dificuldades do ponto de vista do sofrimento mental.

 

É uma boa explicação para a falta de continuidade da sua tese. De facto, a desilusão é o pior, é prometer algo que não se cumpre. Vê-se muito isso com crianças que são retiradas à família e a quem se dá a perspectiva de um novo começo que, muitas vezes, não existe.

 

Não existe. Tive experiências dessas em casos deste âmbito. Percebi um pouco melhor porque é que essas pessoas ficam retidas nas especialidades médicas, em exclusivo, sem a terapêutica a nível mental em simultâneo - aí são recebidas e são atribuídos nomes aos seus sofrimentos, talvez mais fáceis de aceitar. Verifiquei, e há artigos sobre isso, que certas especialidades tinham mais de uma dezena de nomes de diagnósticos para atribuir a estes casos, “dores idiopáticas” com certa localização, por exemplo. O termo idiopático significa que não sabemos ainda a causa, tal como não se sabia a causa dos vómitos do rapaz, ao nível das especialidades médicas. Mas o termo idiopático passa a funcionar como um diagnóstico, que pode ser o único. Acontece também que alguns destes doentes preferem um diagnóstico e uma terapêutica que venha em exclusivo de outra especialidade e não dos “psis”. Os sintomas, cujas causas podem ser multifactoriais, podem passar a ser tratados quase só na Ginecologia, na Cardiologia, por exemplo. 

 

Sim, penso que há especialidades onde a prevalência é maior. Imagino que a Gastroenterologia seja uma delas.

 

Sim, e os dentistas também. Dores nos dentes, pessoas que retiram a dentição toda e, mesmo já sem dentes, continuam com a dor. Há bons dentistas que, às vezes, conseguem, por si próprios, identificar e resolver o problema. A Psicossomática é uma coisa séria. 

 

Dizia que o pior é a desilusão, o que nos leva a outra questão, o respeito pela pessoa que nos procura. Temos de ter a capacidade de perceber quem somos capazes de acompanhar ou não. Quem está a iniciar a clínica e tem ainda poucos casos tem tendência a aceitar tudo e, às vezes, fica com casos muito complicados e difíceis.

 

Sim. Mas, para isso, a supervisão é importante. E estou de acordo, a consciência dos limites que a nossa própria organização interna, por exemplo, nos impõe é importante. Sem deixar de procurar o que podemos continuar a mudar em nós.

 

Quanto aos pacientes de que falávamos, com o chamado “pensamento operatório”, o prognóstico melhora se começarem a ter momentos em que notam, referindo Bion, que a relação terapêutica os acalma, os desintoxica e promove mudança no seu estado interno. Se assim for, pode acontecer que a aliança terapêutica se desenvolva e haja condições para mudanças um pouco mais significativas.

 

A área das adições, onde esteve alguns anos, tem uma dinâmica diferente, mas creio que também se liga ao seu interesse pela psicossomática. 

 

Nas toxicodependências, pode haver, de facto, aquela personalidade alexitímica que tem algumas pontes com o pensamento operatório dos clássicos franceses do princípio da década de 1960, em Paris. Aí, certas substâncias psico-activas servem para dar uma certa animação àquele deserto de que falávamos há pouco, acerca da Psicossomática. Muitas vezes as drogas são usadas como auto-medicação.

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Para a depressão.

 

Exactamente. E aí pode haver uma ponte com este tipo de personalidades. Existe também a problemática do acting out pela dificuldade em ter um inconsciente mais elaborado, com mais conteúdos recalcados. Portanto, há uma tendência ao acting out permanente. 

 

No âmbito das toxicodependências, trabalhei alguns meses no CAT de Cedofeita, aquando da sua abertura, e depois numa comunidade terapêutica, em Adaúfe, estando, nas duas instituições, a Direcção a cargo de Júlio Machado Vaz. Pelo meio, entre 1996 e 1998, fui Coordenadora do Núcleo Distrital do Projecto Vida, em Braga, dedicando-me durante esse período, naturalmente, à problemática da Prevenção Primária.

 

A Cristina faz parte de uma equipa internacional, que trabalha com o Dicionário Enciclopédico Inter-regional [IRED] da International Psychoanalytical Association [IPA]. 

 

Foi uma ideia de Stefano Bolognini, lançada em 2014. Todos os presidentes da IPA, dos últimos mandatos, têm deixado boas marcas. Uma das actividades que antecederam o espírito do dicionário foram os grupos “Escuta da escuta” de Haydée Faimberg, no pré-Congresso da Federação Europeia. 

 

Como é que integrou e como é trabalhar nessa equipa? É um grupo internacional, com muitos elementos e grandes desafios, imagino.

 

Integrei a equipa por convite de Bolognini, em 2019, quando era presidente do IRED. O projecto integra grupos de colaboradores em três regiões: a Europa, a América do Norte e a América do Sul. Cada zona tem o seu chair e um grupo de analistas que elaboram os drafts das entradas criados naquela zona. A presidente actual é Eva Papiasvili. 

 

Para se começar, cada região sugeriu conceitos fundamentais usados a propósito da clínica nessa região. Na Europa, por exemplo, um deles foi o setting, na América do Norte, o enactment. Se o conceito a desenvolver é o setting, a Europa redige o primeiro draft, que depois é enviado ao grupo de colaboradores europeus, para ver se falta algo sobre aquele conceito. E quem nota uma falta, redige uma proposta para a colmatar. Depois disto, esse draft e os drafts das outras duas regiões, entretanto elaborados com a mesma metodologia, entram na fase inter-regional. 

 

Nesta fase, há princípios importantes. Inicialmente, tenta-se a integração das definições do conceito em cada região, mas não se apaga nada do que foi escrito antes. O primeiro objectivo é que todas as formas de utilização de um conceito, nas várias regiões, fiquem representadas, caso não seja possível a integração. É uma valorização importante da representatividade que prevalece sobre uma integração forçada das várias nuances do conceito que possam existir.

 

Fazem-se descobertas incríveis. Por exemplo, uma região pode assumir-se como a área em que um determinado conceito nasceu, indicando um autor famosíssimo como aquele que cunhou o termo, mas descobre-se que, uns anos antes, outra pessoa de outra região ou país, já tinha publicado sobre o conceito, designando-o com o mesmo nome - veja-se, por exemplo, na entrada “Contratransferência”, o caso da “Identificação Projectiva”, que fora assim nomeada e, em grande parte, já entendida como Klein a formulou, mas em 1925 e por Edoardo Weiss. Confrontam-se dados e respeita-se a cronologia. E isso fica no dicionário. Trata-se de um empreendimento que favorece o diálogo científico entre as várias correntes teóricas existentes no seio da Associação Internacional de Psicanálise, enquanto permite aprofundar o conhecimento sobre a forma de trabalhar clinicamente entre colegas de regiões diferentes.

 

Evidentemente, também vamos reconhecendo aquilo que vai sendo descoberto e aceitando que o que nos parecia estabelecido e definitivo, afinal, não o era. 

 

E não posso esquecer-me aqui da contribuição dos tradutores, pois o dicionário está traduzido em muitas línguas, incluindo chinês, farsi, hebraico, por exemplo.

 

Nem todos os conteúdos estão traduzidos em todas as línguas, mas uma parte, sim.

 

Em português, já temos muitas entradas no dicionário. É um trabalho voluntário, disponível no website da IPA, a que qualquer pessoa tem acesso gratuitamente. Os encontros do dicionário, sejam nos congressos da IPA ou da Federação Europeia, são sempre muito estimulantes. Creio que o Dicionário é um contributo valioso para a continuidade da divulgação das teorias e do pensamento psicanalítico e, na formação, é sempre um óptimo instrumento de trabalho, que põe em contacto os psicanalistas de todo o mundo. 

 

Há alguma coisa que a Cristina ainda gostasse de acrescentar?

 

Sim, gostava de convocar o meu percurso na Sociedade Portuguesa de Psicanálise, que seguiu as fases habituais, para me deter naqueles contributos que mantenho ainda ou mantive até há pouco tempo.

É o caso da orientação de seminários, no âmbito da formação para psicanalistas, que está perto de perfazer três décadas e que tem sido ocasião para uma abertura a novas perspetivas teóricas e formas de apresentação clínica da psicopatologia. Ou a orientação de um Seminário opcional anual sobre a obra de Laplanche no âmbito da SPP. A isso alia-se o trabalho formativo de supervisão, não menos interessante.

Foi enriquecedora a participação em órgãos que visam, entre outros aspectos, a manutenção da qualidade da formação ministrada no âmbito desta Sociedade, como a Comissão de Ensino e Direcção do Instituto do Porto.

Ocasiões de aprendizagem de outra natureza foram e são os lugares e os tempos de crise e mudança institucionais, em que, por vezes, parece não haver caminho e se faz caminho ao andar, como diz o poeta António Machado.


 

Braga, 20 de Setembro de 2025

Entrevista realizada por Alexandra Coimbra

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