Da solidão e da (in) capacidade de estar só

Revisitando um texto de Donald Winnicott na actualidade


Por Maria Teresa Sá


"(…) Quanto à solidão, ao silêncio e à obscuridade, não poderemos dizer senão que são circunstâncias às quais está ligada, na maior parte dos humanos, uma angústia infantil que nunca se apagará totalmente.”


Sigmund Freud, L’inquiétante étrangeté


A solidão faz parte da existência humana. Somos confrontados com ela desde que o Eu descobre o Outro, até ao momento do fim. Silenciosa, damos mais por ela em momentos em que nos sentimos mais frágeis, na infância, no envelhecimento, na doença ou no abandono. À noite. No escuro. Mas também há momentos em que a procuramos para uma pausa reconfortante, criativa.


No movimento de perpétua alternância entre estar só e estar com os outros, constrói-se a vida psíquica e o estar no mundo. Para que a solidão nos pesasse menos, criámos laços e linguagem. Quando os laços se fragilizam (um traço das sociedades hipermodernas, individualistas e liberais) a solidão é mais pesada.


Mas o sentimento de solidão é complexo. Parece ter menos que ver com o facto de estarmos ou não sós e mais com os personagens internos que nos acompanham e que servem de suporte à nossa vida. Poderíamos dizer que a solidão, do ponto de vista da realidade psíquica, não é coisa que exista. Já quanto ao sentimento de solidão é outra coisa. Mas o paradoxo do sentimento de solidão é que ele se vive sempre em companhia.


Mark Mellon, Message in The Wind

Na minha prática clínica, nas supervisões que asseguro, como professora, e no trabalho com educadores, tenho contactado com uma crescente dificuldade em estar consigo próprio e, ao mesmo tempo, com uma dificuldade em suportar estar com o (s) outro (s). Em algumas destas pessoas (crianças, adolescentes ou adultos) não observamos estados de descompensação propriamente dita, nem sintomas ruidosos, mas uma angústia e mal-estar difusos, sentimentos de vazio, o medo da solidão e, o que surge à primeira vista paradoxal, um fechamento relacional, a afirmação de não gostar de conviver, uma insuportabilidade aos espaços comuns, às opiniões diferentes, aos relacionamentos que tragam a marca da proximidade e durabilidade, aos vínculos e ao que os lembre.


Em quadros depressivos é frequentemente expresso que quando se está com outros, com colegas, com amigos, em reuniões, festas, no trabalho, o sentimento de solidão é mais agudo e doloroso: não ser escutado, não ser olhado, não ter lugar, a impressão de ser transparente e de não existir. Para evitar o sentimento de solidão há frequentemente a tendência para procurar o isolamento real, referido como uma espécie de refúgio.


Na clínica, esta realidade expressa-se numa maior dificuldade em tomar contacto com o mundo interno, que designamos por vida psíquica, numa estranheza e resistência diante do quadro e dos tempos de uma psicoterapia clássica, no pedido de uma rápida solução exterior (medicação) que traga calma e que acabe de vez com o mal-estar.

Também constato num cada vez maior número de psicoterapias infantis que o quadro instaurado pelo psicoterapeuta parece insuficiente para conter a excitação e a exteriorização, talvez por ser sentido pela criança como uma violência diante da sua frágil integridade psíquica, deixada a sós com a sua vida interior e com pulsões que dificilmente consegue regular. Em que estás a pensar? o que sentes? Como ir “escutar dentro”, se aquilo com que contacta é tão desconhecido quanto angustiante?


Se no passado o convite à livre expressão das emoções trazia claras melhorias, hoje, o espaço de liberdade proposto pelo setting psicoterapêutico, convidando a uma exploração e expansão do mundo interno, desencadeia em muitos casos profundas angústias de insuportabilidade e desamparo e um ciclo de exteriorização difícil de conter e de transformar. Vários estudos têm referido o aumento das depressões, mas igualmente de patologias de fronteira ou border-line, associadas à linha narcísica, em que angústias de abandono e de intrusão muito precoces estariam presentes. A função continente do terapeuta e o manejo do quadro/setting são cada vez mais postos à prova, diante do que aparece como uma fragilidade dos continentes internos que organizam e sustêm as fronteiras do Eu.


Não há dúvida de que precisamos de um Outro que escute, mas a exigência da sua permanente acessibilidade parece caminhar lado a lado com o evitamento do contacto.

Escuto por vezes a argumentação de que os tratamentos à distância (redes na internet, consultas via Skype, SOS voz amiga) são pertinentes para uma população que foge da proximidade/presença e que não se pode deixar ajudar senão com a mediação do écran ou do telefone. Neste fascínio pelas consultas à distância (tanto por parte de clientes como de psicoterapeutas) o que não suportamos? A relação? O encontro connosco diante do Outro? Os riscos da dependência afetiva? Haverá o risco do aparecimento de “terapeutas de arame” que dão alimento, mas não se deixam tocar? Para não arriscar o “pelo”? A proximidade-distante dos tempos líquidos, como referiu Zygmunt Bauman?


Tenho vindo a colocar a hipótese de que a incerteza na fiabilidade, presença, continuidade e consistência dos laços de boa dependência (acompanhantes externos), a precocidade das separações, a entrada cada vez mais precoce em ambientes educativos supletivos da relação precoce na díade (berçários, infantários, creche), uma instabilidade e imprevisibilidade dos quadros externos de suporte ao crescimento, nomeadamente os familiares, uma dessolidarização e perca de consenso educativo entre adultos, a dificuldade destes em suportarem a sua própria solidão e os tempos de crescimento da criança, trazem importantes consequências na organização dos acompanhantes internos, agravando sentimentos de solidão e pondo em marcha defesas extremas contra eles, seja pela atividade incessante e sem objetivo (diríamos sem objeto), seja pela retirada do contacto e isolamento, seja pela violência hétero e autodestrutiva, seja através de múltiplos comportamentos aditivos.


Uma “autonomia” cada vez mais idolatrada caminha lado a lado com a precariedade do suporte às necessidades de dependência da criança pequena. Observamos com perplexidade os múltiplos dispositivos numéricos (webcam nos quartos e nas creches) para sossegar os bebés, para os adultos se sossegarem a si mesmos, ou para estabelecerem um contacto que parecem não conseguir suportar na proximidade. Se é verdade que a criança nunca foi um bem tão precioso, espera-se que não incomode demasiado. Colocada num lugar central à nascença, é frequentemente abandonada a si própria muito cedo. Sobre-ocupadas precipitam-se (precipitamo-las?) de uma atividade para outra. Sós, agarram-se (agarramo-nos?) aos jogos de consola, aos écrans, ao telemóvel, ao Facebook, aos smartphones, aos tablets, à televisão nos quartos.

Se estar consigo próprio parece, neste cenário, um encontro difícil, o encontro com os Outros (reais) fica igualmente colorido por uma certa desconfiança, fragilidade, vergonha, angústias de desamparo e persecutórias, sentimentos diante dos quais o “controle” e “omnipotência” surgem muito associados à necessidade de manter o outro por perto.


Donald Winnicott foi o primeiro psicanalista a debruçar-se aprofundadamente sobre a solidão e o sentimento de solidão. De uma forma original e genial. O seu texto “A capacidade de estar só”, apresentado à Sociedade Britânica de Psicanálise em 1957 e publicado em 1958 no International Journal of Psychoanalysis, parece-me de uma enorme actualidade.


Neste artigo, Winnicott escreve que a capacidade para estar só é “um dos sinais mais importantes de maturidade e de desenvolvimento afetivo” e defende que para experimentar a solidão são precisos pelo menos dois. Que para amadurecer afetivamente, a criança pequena precisa de fazer a experiência da solidão com o Outro ao seu lado, sendo esta experiência tão fundamental para preparar a ausência (suportar a solidão) como para não sentir a presença do Outro como uma intrusão permanente.

Para que esta experiência seja possível é fundamental que o adulto suporte a sua própria solidão e possa, assim, com uma presença não invasiva, acompanhar a criança na construção desse espaço interno. Winnicott di-lo bem “acompanhar”, diferente de “consolar”.


Se a teoria psicanalítica clássica nos diz que para suportar a solidão real é fundamental a interiorização do bom objeto, ou seja, estar com o bom objeto na sua ausência, Winnicott diz-nos que a aprendizagem da solidão se faz estando sem o objeto na sua presença, o que designa pela “capacidade de estar só na presença do Outro”. O sujeito aprende a estar diante do objeto e ao mesmo tempo com as suas pulsões, ou seja, a estar com a sua vida intrapsíquica diante do outro.


Ora é precisamente este o convite que fazemos numa psicoterapia e que parece, nos dias que correm, extremamente difícil aos nossos pacientes e em particular aos mais jovens. O conceito de “capacidade de estar só na presença do outro” permite pensar uma forma de intersubjetividade na qual não se exerce a influência da presença do outro sobre o curso dos acontecimentos psíquicos do sujeito, uma intersubjetividade que respeita os seus movimentos intrapsíquicos ou seja, que permite a construção de uma vida interior.


Para o bebé não há “ausência”, há apenas presença. Não há ausência nem vazio de objetos: há presença de bons ou maus objetos. E na solidão real, quando vivida continuadamente e precocemente, o objeto psíquico tende a tornar-se omnipotente, a sombra do Outro cai sobre o Eu, como Freud descreveu em luto e melancolia. É uma solidão invadida pelo Outro.


No sentimento doloroso de solidão o que se passa é que o Outro, presente ou não, é inacessível. Em algumas configurações psicopatológicas que nos aparecem na actualidade, mata-se o problema na origem: evacuar o Outro, o Outro não existe, então não me pode faltar, não estou só.


A capacidade de estar só não deve ser, entretanto, confundida com o estado de retirada. Segundo Winnicott, a pessoa que tem necessidade de se retirar dos relacionamentos com os outros, terá experienciado fortes impactos no início da sua vida e tem que se retirar com vista a preservar o seu Eu central das intrusões. Se a retirada constitui ainda a possibilidade de uma relação com os objetos subjetivos e facilita que o sujeito se sinta real / se sinta existir (o que explicaria, segundo alguns autores comportamentos de dependência aditiva, em que esse espaço de estar consigo mesmo é recriado de uma forma particular, fora da relação com o Outro, tese defendida Catherine Audibert no seu livro L’incapacité d’être seul, é igualmente um isolamento que não ajuda a desenvolver e a expandir um sentido do self, empobrece-nos.


O artigo de Winnicott, surge curiosamente no mesmo ano em que Bowlby publica o seu trabalho sobre a Vinculação “The nature of the child’s tie to his mother” ( International Journal of Psychoanalysis, 39, 350 -373) e Harlow a “A natureza do Amor”. Os estudos sobre a Vinculação defendem que é na presença real da figura de vinculação (base de segurança) que o bebé pode autonomizar-se e explorar o mundo externo e interno e que o laço de dependência e a presença não são antónimos de autonomia, mas precisamente o seu garante.


Estes estudos descrevem de forma clara os três momentos do processo de construção da capacidade de estar só, a tríade Proximidade/disponibilidade/acessibilidade: como a criança precisa de se reassegurar, em primeiro lugar, com a presença física do Outro; como depois, pouco a pouco, bastará sentir a disponibilidade do Outro para que se sinta segura; e, mais tarde, como a acessibilidade do outro será suficiente, pois que já interiorizou a sua presença (o bom objeto). A integração de um Outro presente e fiável constrói uma base interna de segurança que progressivamente se generaliza ao Outros-Outros e à vida, e à esperança e à vontade de viver de forma autónoma e, igualmente, à possibilidade de criar laços.


No pesado sentimento de solidão parece ser precisamente esta incapacidade de integrar no psiquismo um outro próximo, disponível e fiável, que falhou.


A propósito do conceito de confiança-fiabilidade, considero particularmente ilustrativo e belo o que Winnicott escreve numa carta a Donald Meltzer:


« Le fondement d’une structure psychique saine et stable est certainement à rapporter à la fiabilité de la mère interne, mais cette capacité est elle-même soutenue par l’individu. Il est vrai que les gens passent leur vie à porter le réverbère sur lequel ils s’appuient, mais quelque part au commencement, il doit y avoir un réverbère qui tient tout seul, sinon il n’y a pas d’introjection de la fiabilité » e « la fiabilité et la confiance sont les conditions pour qu’existent un espace potentiel, un espace de jeu et de création et un lieu où mettre ce que nous trouvons »


Winnicott conclui: Ser capaz de estar só é ser capaz de estar com, de tolerar simultaneamente a presença real e a presença interna. Winnicott considera igualmente “a capacidade de estar só na presença do outro” como um desenvolvimento necessário ao decurso de uma psicoterapia. No seu texto “da comunicação e da não-comunicação” (1963), Winnicott sublinha a importância de respeitar a necessidade de isolamento dos pacientes para lhes permitir reviver a experiência infantil de uma solidão acompanhada e apaziguadora, o que pode passar por uma simples presença física. Esta questão torna-se particularmente importante quando o sofrimento que leva o sujeito até nós é de ordem narcísico-identitária, quer dizer, já ligado aos efeitos alienantes da sua própria história e ao falso-self que o sujeito desenvolveu em resposta às influências do seu ambiente de desenvolvimento. Uma das formas de sofrimento narcísico reside precisamente na incapacidade de se subtrair ao peso da presença do outro: está, seja sob a influência deste, seja, todo inteiro, em reação a esta presença que sente como traumática.


Como refere André Green em A simbolização e a ausência, “uma análise não visa senão talvez a capacidade de estar só do paciente em presença do analista”, o que frequentemente designamos por função analisante. Se a solidão se sente na presença do Outro, é também na presença do Outro que ela se se pode tratar e elaborar. É preciso o Outro para que nos reapropriemos de nós. O primeiro objetivo de todo o processo psicoterapêutico, cura da relação pela relação, é o de, por meio de um contacto emocional autêntico, construir a possibilidade desta experiência.


Talvez que, como refere Guy Debord, “As pessoas não encontrando o que desejam, se contentem em desejar o que encontram” e que algum do mal-estar num tempo de tantas incertezas se deva às formas de proximidade-distante que nos vão sendo propostas todos os dias, desde muito cedo. Talvez que a proximidade próxima não seja um um artefacto do passado, mas uma necessidade Humana que continua a pedir resposta, mesmo que por estranhas formas de se fazer ouvir. Haverá que escutá-la.

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